domingo, 4 de dezembro de 2011

Repartindo o pão!

Esta época do ano é cheia de simbolismos para mim: tenho uma música toda especial que só ouço no natal, tenho uma súbita necessidade de ir à Igreja, agradecer pessoalmente o ano que passou (o que na maior parte do ano faço de casa mesmo...), além daquelas comidinhas que só comemos no fim de ano, sei lá o porquê...

O fato é que a cada ano essas pequenas tradições festivas se tornam mais e mais gostosas para mim. Elas me lembram pessoas, momentos felizes, presentes esperados e surpresas inesquecíveis quase sempre compartilhadas com aqueles que mais amo.

Este ano, em especial, sinto o natal mais vivo do que nunca! A esperança e a expectativa de uma chegada tão desejada me faz vivenciar a felicidade desta comemoração como nunca! O natal está em meu coração, em meus sonhos, no meu desejo de paz, mais do que em qualquer exteriorização ou decoração natalina, que sempre curti tanto!

No entanto, o fim de ano também traz aquelas festinhas de despedida que muitas vezes podem se tornar meio chatas, seja porque reúne gente demais, seja porque a empresa escolheu um lugar desconfortável, seja porque a família do namorado ainda não te deixa tão à vontade...sei lá, sempre tem aquele encontro que a gente vai meio de má vontade, ainda, que nem às paredes confesse!

Neste estado de espírito, esbarrei num conto da Clarice Lispector que me fez pensar um pouco sobre o que torna toda e qualquer festa de fim de ano tão gostosa: a reunião em torno da mesa.

O conto é intitulado: “A repartição dos pães” e integra, originalmente, o livro “A Legião Estrangeira”, mas faz parte de uma coletânea lançada, há relativamente pouco tempo, pela Rocco, trazendo contos de Clarice selecionados por leitores para lá de especiais, como Maria Bethania, Lya Luft, Marina Colasanti, entre outros. Esta coletânea chama-se “Clarice na Cabeceira” e traz antes de cada conto uma pequena introdução elaborada por quem selecionou o texto, explicando porque ele é um dos seus preferidos desta autora.

É uma leitura para relembrar os livros da autora e (por que não?) dar novo sentido ao que foi lido a partir da visão de um outro leitor que escolheu compartilhar sua experiência com Clarice...claro que estou amando o livro!

Como nunca tinha lido este conto, como chegou a mim nesta época e como sei que nada é por acaso resolvi fazer este post para falar só dele!

A autora narra um almoço a que todos se sentem compelidos a comparecer por pura obrigação social, as pessoas não se entrosam, não há qualquer afinidade entre elas, todas se perguntam porque é tão difícil permanecer naquele compromisso, o que faz desta reunião de pessoas um tédio. Até que a anfitriã convida a todos para sentarem à mesa.

Não era uma mesa qualquer, mas uma mesa maravilhosa, com frutas frescas, arranjos de trigo e tudo mais que a terra pode prover em sua plenitude e beleza, conquistando os convidados com os seus sabores, as suas cores e o seu cheiro.

Resultado:

(...)Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se a trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobriamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos”.

E essa conclusão parece resumir tudo que realmente sinto quando volto desses encontros, aquela satisfação de ter simplesmente compartilhado um momento de alegria em torno da mesa, ter conhecido um pouco melhor aquele grupo, enfim, por ter avançado um pouco mais na direção do outro.

Mesmo na nossa família, onde nos reunimos em total alegria, será que a mesa de natal, tão caprichada, em que se vê a contribuição de cada um nos partos elaborados, nos arranjos de flores e tudo mais, não tem um poder agregador sobre cada um de nós?

Aqui em casa eu sei que tem... naquele momento em nos sentamos à mesa, não importa mais o que o ano nos trouxe ou nos levou, ali estamos reunidos em um só propósito e um só sentimento: gratidão pelo pão repartido e por estarmos reunidos mais uma vez.

Bjs!!

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