quarta-feira, 28 de março de 2018

Família e bagagens...

Tem autores que escrevem para a gente.
Eles não sabem, nem imaginam o alcance daquela palavra, mas por meio dela escrevem sobre nossas questões, falam de pessoas que lembramos vagamente ou de outros com quem convivemos todos os dias, descrevem lugares que nos são familiares e pintam imagens que temos na memória.
Ler os livros do Francisco Azevedo fez isso comigo, me fez sentir como se ele escrevesse para mim.
Comecei pelo "Arroz de Palma", no final do ano passado, minha leitura de recesso, pra fugir um pouquinho da reforma trabalhista.
A narrativa de um senhor que fala sobre suas memórias, desde a vinda da família de Portugal, até o seu casamento, a família que formou aqui no Brasil, a chegada dos filhos, os desafios e tradições familiares, a forma de lidar com os conflitos de gerações, tudo falava ao meu coração.
Gostei em especial da definição de família que o autor logo no início delineou em comparação com a culinária:

"...Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras, apimentadíssimas. Há também as que não tem gosto de nada  - seriam assim um tipo de "família diet", que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir".

E assim começa a narrativa dos amores, medos e reuniões de uma família portuguesa que fincou raízes no Brasil. Gente como a gente, cheia de contradições, desejos e culpas, mas que encontra a medida de cada emoção para uma vida feliz.
No início desse ano me deparei com o segundo livro que li dele, "Os novos moradores", editado pela Record. Foi amor à primeira leitura. Já a capa me conquistou. Uma capa amarela, com duas portas idênticas salvo pelo interior escuro de uma e um céu azul brilhante que se vê pela outra. 

Não somos todos assim? Verdadeira dualidade, buscando iluminar nosso interior?

A gente atrai o que precisa ler, como atrai as pessoas com quem precisamos aprender, os amigos que precisamos ajudar, os lugares em que precisamos vivenciar mais alguma coisa...senti isso mais uma vez lendo este livro.
É sobre amor, sobre maneiras de vivenciar o amor, sobre transparência e honestidade, consigo e com o outro, sobre ser livre e deixar livre, aceitando que as pessoas, os amores, as relações mudam mesmo, mas não deixam de ser intensas, muitas vezes à flor da pele, atraindo ou repelindo.

Abri o prefácio ainda na livraria e esse trecho me prendeu:

"...Por instinto de sobrevivência, somos todos caracóis. Vamos nos arrastando lenta e diuturnamente, carregando nossas bagagens secretas. Peso inútil. Até o fim. Tão bom seria, em dia abençoado, nos livrarmos dos velhos baús! Sem temor e sem defesa alguma, diríamos tudo ao outro e, com paciência zen, ouviríamos tudo do outro - as verdades mais sombrias vindo à tona - e, então, sem pôr em balança o certo e o errado, nos absolveríamos reciprocamente com desmedida generosidade, sem cobranças ou penitências. Céus, que alívio nos daríamos! Amores desalgemados, ninguém mais inconfesso a sete chaves. Anda, vem. Vamos sacudir nossos lençóis. Nos revirar, nos traduzir, nos decifrar. Vem, me abraça, me beija, me adentra. É para isso que estamos aqui. Nosso tempo é precioso e nossa carne é nosso ímã: atrai ou repele. Vem, que estamos do lado certo que chama. grudados e imantados, seremos vários, seremos um. E juntos nos libertaremos. Anda, vem. A verdade está tão perto..." 

Saí abraçada com o livro e só larguei quando terminei de ler.

Francisco Azevedo fala pra mim, sobre a minha família apimentada, sobre meus anseios de viver intensamente cada sentimento, verdadeira sobre o que sinto de bom e de ruim. Somos o que somos, se falhos, que ao menos sejamos verdadeiros, para sermos livres. Perto ou longe, o que tem que ser simplesmente é, nosso caminho vai esbarrando em outros, somos de carne e osso, mas se há amor, algo nos traz de volta ao rumo e vamos nos livrando das bagagem inútil para abrir espaço para novas emoções. 

"Os novos moradores" do Francisco Azevedo é para a nova moradora que pede passagem em mim, que redecora os espaços e se desfaz do que não traz alegria, que deixa a luz do céu entrar...

terça-feira, 27 de março de 2018

Mãe de menino

Eis que uma das mais divertidas tarefas de mãe é a escolha do livro, aquela leitura da noite, a contação de história da hora de dormir, a historinha rápida de gibi para entretenimento do domingo de manhã ou aquela pra distrair da colher que vem em direção à boca sempre fechada (como que recusando expressamente o avião que já sabe ser feijão).
Eu, modéstia à parte, sou boa na narrativa!
Em matéria de historinha: de chapeuzinho vermelho a três porquinhos, arraso nos efeitos especiais! Sou fiel ao enredo, mas dou aquela floreada pra deixar mais engraçado! Pausa intencional na hora do sopro à casinha de palha pra garantir o suspense...Sucesso garantido.
Já em se tratando de escolher o livro, sou chatinha.
Levo pra Bienal, livraria, coisa e tal...deixo cada menino livre a escolher.
Voltam eles com o livro sem história, aquele de pintar, de brincar, de ouvir músicas e sons, tudo menos uma boa história, sabe?! Dessas com início, meio e fim, deixando uma bela mensagem educativa...isso eles nunca escolhem.
Aí, lá vai a mamãe chatinha.
Mostro a primeira alternativa.
Oha esse aqui sobre o bolo de chocolate da Flávia...parece legal!
Olha esse aqui sobre o avô português...igual ao seu!
Olha esse aqui sobre o coelho que pensava...lembra do coelhinho da páscoa?
Olha isso, olha aquilo, vamos chegando a várias opções legais, eles ganham enredo, eu ganho momentos deliciosos de aconchego (e muita falação) que fazem chegar o soninho.
Aí tem o dia que o livro que eu escolho pra eles me lembra das minhas próprias leituras de infância, me lembra aquele que li na escola quando nem sonhava ser mãe de menino e eu rio de mim...já, já o Miguel vai aprender a ler, vai escolher as próprias leituras, vai deitar na cama e ler sozinho, sonhando os próprios sonhos pelas aventuras que imaginar.
Faz mal não...pelo contrário.
Faz bem.
Muito bem...
Se até lá, a gente se deparar de vez em quando com um poema do Drummond que nos faça rir ou dormir agarradinho já valeu! É isso que fica...
Tudo isso pra dizer que o livro "Menino Drummond" da Companhia das Letrinhas, com ilustrações da Angela Lago, foi um achado.
Vira e mexe entra na lista da hora do soninho e eu é que sonho, lendo para o Guel e o Thi poemas que sempre li, quando eles nem estavam aqui e que ainda vou ler para quem mais chegar...é o que fica!

Ontem li para eles:

"Quero

Quero que todos os dias do ano 
todos os dias da vida 
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos 
me digas: eu te amo.

Ouvindo-te dizer: eu te amo,
creio no momento que sou amado.
no momento anterior e no seguine como sabe-lo?"

[...]

Aí já viu...beijo, abraço, digo que amo mais que tudo no mundo...deita, fecha o olho e dorme, mamãe está aqui.

Eu sonho acordada, olhando para o maior amor do mundo.

Não sei até agora o que é mais gostoso, dormir agarradinhos na cama da mamãe ou ir ler na caminha de vcs...


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Solidariedade é o tema!

E quanto mais eu penso, menos consigo entender esse mundo. Em tempos de eleição de Trump (e nem vou falar da política brasileira pra não polemizar) como entender pra aonde vamos? Este livro estava encostado aqui em casa desses que a gente compra e fala que vai ler já, já, mas não pega sabe? Quando peguei e li tive vontade de mandar pra ele, tadinho, tão equivocado na vida...
"O mundo não tem mais tempo a perder", Le Collegium International, tradução de Clóvis Marques, editado pela Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2014, 1a. Edição, é um estudo sobre governança solidária e responsável que discute a importância de olhar para o planeta livre de quaquer noção de hegemonia, porque não há nação no mundo que esteja isolada em uma realidade tão globalizada como a atual. O problema da Síria não é só dela, os refugiados não são objetos cujo fluxo migratório possa ser detido, são pessoas dispostas a tudo pra viver fora da guerra. Não existe quem já tenha cumprido sua missão e possa estar livre de qualquer contribuição para o bem estar do outro. Estamos todos conectados. A infelicidade de uns abala a todos. Não há paz se um só lugar no mundo está em conflito. E o bacana da proposta desse livro é que ela mostra o quanto estamos equivocados com as políticas públicas atuais...o quanto temos a contribuir para a comunidade em que estamos inseridos. Apenas nós podemos iniciar o movimento ali proposto. Não existe um único governante, do meu ponto de vista, que esteja apenas comprometido com essa mudança de paradigmas na Administração Global. Os interesses egoístas prevalecem sempre em cada nação. Protecionismos que vão na contramão das necessidades de todos...
E se a gente pensar bem, será que fazemos a nossa parte?
Em que contribuímos para esse estado de coisas?
Em que momentos somos realmente solidários, na nossa família, no nosso ambiente de trabalho, nos nossos relacionamentos mais caros? 
Na administração dos conflitos ensinamos solidariedade? Vivenciamos de forma responsável nosso dia-a-dia?
Eu tenho muita facilidade em identificar no outro o que faltou para governança ideal, assim como olho para o Trump e aponto tudo de errado que se pode identificar à primeira vista nessas medidas toscas dele, mas em mim o que falta construir...é mais difícil de implementar. 
Como mãe, olho para meus dois meninos tão amorosos mas também tão donos de tudo...nessa fase que a criança quer tudo pra si...e penso como torná-los menos ciumentos, mais generosos, como solucionar as disputas sem magoar nenhum deles, mas o certo é que as frustrações são parte do crescimento e eles precisam ver além do próprio umbigo. 
Como mulher entendo que o maior conflito do meu mundo interno está em seguir minha individualidade, meus desejos profissionais e pessoais, mas também manter a harmonia das minhas relações afetivas, não deixar que as frustrações de um lado interfiram em outro, não sobrecarregar de expectativas aqueles que estão a minha volta no percurso...ninguém é perfeito, mas podemos co-existir nos ajudando a construir o que falta, ao invés de viver apontando os mísseis na hora da crise. 
Não moramos na cidade perfeita e podemos protestar, sim, contra o que está errado, mas ao mesmo tempo, podemos agir de forma solidária, contribuindo para as famílias que estão sem receber salários, divulgando medidas (ainda que paliativas) para passarmos todos por esse momento da melhor maneira possível. 
Há sempre algo que podemos doar, não apenas dinheiro ou bens, mas de nós mesmos, nosso tempo, nossa voz, nossos ouvidos, nosso abraço, nosso perfil na rede social. Vamos divulgar o bem, curtir o que vale a pena...
Precisamos de governança solidária e responsável em nossas vidas; quando conseguirmos nos governar o mundo estará salvo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Felicidade é saúde!

Cada vez acredito mais na relação entre a saúde e o estado emocional das pessoas. Sinto isso nas pessoas que me cercam mas sobretudo em mim. Eu não fico doente nunca, não sou de ficar gripada, não tenho mal estar nem quando como aquele iogurte vencido, verdade seja dita...eu nem reparo na validade antes de comer. Então quando me apareceu um nódulo no pescoço, a pressão subiu, a balança quebrou e eu comecei a desconfiar que era alérgica de tanto resfriado e indisposição...a família toda pegando a conjuntivite da creche do pequeno...naquele momento tive certeza: caramba, tem alguma coisa muito errada em como estou me sentindo nesse momento. E quando logo a seguir tem alguém realmente doente a sua volta, de quem você quer cuidar, quer que fique bem, a saúde se mostra o bem mais precioso que se pode ter, embora a gente saiba que quando tem não dá o menor valor. Nessa hora, impossível avaliar o que surgiu primeiro, se a infelicidade evidente de quem está se sentindo no olho do furacão ou se o mal estar generalizado que ameaça tomar conta do pedaço. Acho que todo mundo vive momentos assim, mas cada um a sua maneira. Eu não sei ser infeliz. Nunca soube. Não pretendo aprender. Mudo tudo se precisar, boto tudo pra fora do armário, mas eu mesma não me aguento se estiver infeliz. Insatisfeita já acho complicado, mas infeliz eu realmente não consigo ser por muito tempo. E não adianta pedir conselho, se abrir com a amiga, pelo contrário, quanto mais opinião pior fica, especialmente porque na hora h nem sempre recorremos à pessoa certa. Até porque ninguém pode resolver a tua vida, cada um está lutando para resolver a própria, que afinal não está fácil pra ninguém...
A única coisa que funciona (para mim, pelo menos) é parar tudo e olhar pra dentro; se perguntar o que me faria feliz nesse momento; olhar para o que realmente desandou, como e porque desandou...ver as pessoas e as situações como são agora e aceitar que o ideal nem sempre é possível, reduzir expectativas e analisar o custo benefício de cada relação para transformar a insatisfação crescente em fonte de renovação. 
Conviver com quem te faz bem, comer o que te faz sentir bem, celebrar a alegria do hoje, aproveitar o tempo junto daqueles que mais ama, dar o melhor de si naquelas relações em que a recíproca é verdadeira, retomar hábitos que sempre foram prazerosos, se cercar do que te dá forças para seguir, se reconectar com o divino que habita a cada um de nós, buscando nele o equilíbrio que nos falta naquele momento. Para mim, essa é a receita.
E, de repente, a felicidade que brota de nos cercarmos do que faz tão bem...cura todos os males, a vida vai se encarregando de botar tudo em ordem, todos sobrevivem. As situações a nossa volta já se mostram bem mais simples, porque escolhemos não lutar contra o inevitável e nos adaptar às transformações. E quando você dá um basta, as pessoas ao seu redor também se adaptam. A coisas na vida não são estáticas, tudo muda e eu também preciso mudar em muitas formas de lidar com elas, mas a seleção quem faz sou eu. O que fica e o que vai pra nunca mais sou eu que determino, porque é a minha vida. E o equilíbrio tão inatingível começa a parecer mais próximo. 
E passada minha explosão transformadora, pegar um livro com o título "Felicidade Incurável" parece até piada, mas parecia que o Carpintejar estava escrevendo sobre situações boas e ruins do meu último ano, minhas idas e vindas no amor, minhas buscas, minhas retomadas, minhas insatisfações e faxinas na alma, minhas alegrias e angústias reunidas sob um ponto de vista que não era exatamente o meu, porque o autor era um homem e isso muda um pouco as coisas.
Acho impossível não se identificar com o livro, é sobre o cotidiano, sobre amor, sobre crises, sobre a vida a dois, a três, a quatro, sobre as famílias, de uma forma muito bem humorada, mostrando que todo mundo passa por dilemas parecidos e cada um precisa encontrar sua saída de emergência, mas até para sair de uma situação difícil é preciso estar bem, olhar para si com bom humor, rir do que passou e se permitir ser feliz, de novo. Temos todo o tempo do mundo para mudar...a eternidade se for preciso, só não precisa ser tão sofrido...
O livro é editado pela Bertrand Brasil, vale a leitura!
Vai ficar aqui na minha cabeceira, just in case!



domingo, 25 de setembro de 2016

#amor

Eu esta semana me atraquei com um livro sobre amor na juventude, estilo primeiro amor, adolescente, imprudente, frio na barriga...é "O amor nos tempos de #likes", escrito a oito mãos por Pam Gonçalves, Bel Rodrigues, Hugo Francioni e Pedro Pereira, editado pela Galera do Rio de Janeiro.

O livro tem uma linguagem super moderna, misturando diálogos de whatsapp, mensagens de texto, blogues, canal de youtube entre outras parafernálias que surpreendem só a mim que fui adolescente no tempo do ICQ, quando nem o Orkut tinha bombado ainda.

Fiquei tentando imaginar o que é ser adolescente hoje, mas mais do que isso tentei imaginar Miguel e Thiago adolescentes, usando isso tudo para se relacionar com o mundo e pensando se seria mais fácil pra eles do que foi para mim...talvez não.

Na verdade é um livro super light e por isso mesmo muito gostoso de ler, com passagens engraçadíssimas!

Eu é que compliquei um pouco as coisas com meus devaneios...

É um livro que eu quero dar para minha afilhada Ana Beatriz, porque fala sobre encontros mas também sobre estar aberta a eles, sem medo da crítica, sem pudor de parecer boba, segura de que pode ser o que quiser, sempre...o importante é estar feliz consigo mesma.

É um livro que eu gostaria de dar para a Marcella, minha prima que vive o primeiro namoro intensamente, linda, feliz, cheia de vida, porque o livro é também sobre ela e sobre tudo que pode dar certo nessa vida, mesmo que não seja perfeita de cara.

Não tem nenhuma mensagem tão profunda, mas me fez pensar que é bom manter a capacidade de  olhar a vida por um prisma mais jovem, ver o novo sem tantas certezas de quem viveu mais, porque cada tempo traz seus desafios e quanto mais aberta estiver à nova geração mais próxima estarei deles: Miguel e Thiago adolescentes, independentes, mundo à fora, mas certos de que podem sempre voltar pra casa, para conversar sobre qualquer dilema, sentindo-se acolhidos em qualquer dificuldade, ouvidos e apoiados incondicionalmente...ainda que suas dificuldades sejam outras ou que me pareçam tão mais simples na minha visão de mundo um pouco mais ampla.

O importante não é tanto a opinião, mas o estender a mão...em qualquer geração! Os dilemas são outros, mas a sensação de quem inicia uma trajetória, uma relação, um projeto é a mesma...sobre isso todo mundo quer trocar...o livro é sobre trocas, reciprocidade, amar e ser amado, em qualquer tempo.

Essa é a meta desta mãe em construção! Amar, se deixando amar, educar, sem ser inflexível, ouvir, sem julgar, criar pra vida, sabendo que eles vão ter outros amores, nem sempre fáceis, outros dilemas do tamanho das suas dificuldades, mantendo sempre a capacidade de estender a mão...porque filhos são uma missão que não termina nunca...mães são sempre necessárias...e que bom quando a recíproca é verdadeira.

Fica a dica para as leitoras que curtem um livro curtinho sobre amor!



bjs!


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Sobre liberdade!

Sabe aquele livro que te chama a atenção pelo título?

Assim, foi esse..."Cruzando o caminho do sol", do Corban Addison, editora Novo Conceito.

Eu comprei por impulso e ficou aqui na lista das leituras futuras um tempão.

Até semana passada.

Comecei a ler atraída pelo cenário pós tsunami dele, pensando que se alguém sobrevive a um tsunami é porque, realmente, se pode sobreviver a tudo, achando que a grande questão do livro seria a superação daquela tragédia e a reconstrução de uma família, daquele contexto em que os personagens estavam envolvidos e tudo mais.

Não era bem essa a temática central.

Na verdade, o livro é sobre liberdade e, especialmente, a feminina, sem ser feminista ou alardear a chamada cultura do estupro. É sobre algo muito mais básico. É sobre o direito de ir e vir do qual algumas (muitas) mulheres são privadas por traficantes que fazem delas um comércio. É sobre a ilusão de ganhar dinheiro fácil sem atentar para o valor que se perde no processo, é sobre um mercado mais antigo do que a nossa civilização, em que a sexualidade é uma moeda de troca, nem sempre justa. 

É sobre lutar o bom combate...mesmo quando tudo aponta para uma guerra perdida.

O tráfico de mulheres é uma realidade sobre a qual não debatemos o suficiente, mesmo que todo mundo já tenha ouvido falar dela. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estimou em 2005 (último levantamento referente ao tema) que o tráfico de pessoas é uma das atividades criminosas mais lucrativas do mundo, envolvendo cerca de 2,5 milhões de vítimas e movimentando aproximadamente U$ 32 bilhões por ano.

As mulheres são larga maioria: 98% dos casos são de tráfico de mulheres para fins sexuais.

Os dados constantes na página do Governo Federal (Portal Brasil) são alarmantes.

E embora a situação narrada no livro esteja no contexto da Índia, logo após a tragédia decorrente do Tsunami, não é difícil imaginar porque o Brasil é parte significativa nesta engrenagem do tráfico, já que as vítimas são todas muito jovens (entre 13 e 25 anos), com pouca escolaridade e nível social muito baixo, normalmente, enganadas com a promessa de uma melhor qualidade de vida.

Não falamos o suficiente sobre isso. Não alertamos o suficiente nossas crianças. Não olhamos com olhos de ver para as pessoas que passam por nós nos aeroportos. Não estamos atentos para números tão alarmantes e que provavelmente nem chegam perto da realidade, porque é um crime silencioso, que envolve cárcere privado, vergonha, medo, etc...

O portal Brasil tem divulgado o número 180 que funciona em vários países para receber denúncias de crimes contra a mulher, um serviço disponibilizado 24h para todos que tenham qualquer tipo de informação sobre um possível caso de exploração ou mesmo que desconfiem terem presenciado qualquer conduta imprópria que possa estar relacionada ao tráfico de pessoas.

É muito pouco. E depois da denúncia? Como reinserir esta mulher na sociedade garantindo a sua segurança? Como evitar que outras passem pela mesma situação? O Tráfico de pessoas, como a pedofilia, só podem ser erradicados com uma conscientização cada vez maior da população sobre os riscos a que todos estamos expostos, sobre como devemos estar atentos no nosso dia-a-dia, levando informação na tentativa de uma prevenção que tem que partir de dentro de casa.

O livro me fez pensar sobre quantas vezes eu mesma poderia estar exposta a esse risco, o quanto eu menosprezo uma coisa tão importante, minha liberdade de trabalhar e viver como bem entender, criar meus filhos, estar com eles, educá-los para não acharem esse tipo de coisa normal.

Há algo de muito errado num mundo em que pessoas ainda são vendidas, mas há algo mais errado ainda na sensação de que isso é só um dado estatístico e de que não há mais nada a fazer.

Esse livro dá vontade de fazer alguma coisa, saber mais sobre isso, buscar um meio de parar essa engrenagem. 

Bom, tomara que essa vontade contagie muitos leitores! O livro merece ser lido e comentado!






segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A última romântica...entra na fila!



Há bastante tempo só comprava e ganhava livros que não lia mais...acho que desde que o Thi nasceu não consegui engrenar na leitura. Não tanto porque não tivesse tempo ou vontade, mas por uma absoluta falta de concentração, como se meus pensamentos atropelassem as palavras lidas e elas não me prendessem ao enredo de coisa alguma que não fosse muito, mas muito breve.
Aí ganhei um livro no natal passado...porque sempre ganho algum mesmo, até aí tudo ótimo: aquela empolgação de quem ganhou um objeto de desejo constante. OK.
Era um romance.
O primeiro de uma saga da autora Julia Quinn sobre uma família composta basicamente por mulheres fortes e que estão dispostas a tudo para viver aquele grande amor.
Confesso: ficou alguns dias pegando poeira na minha cabeceira.
Não olhava na direção dele.
Dividida entre a vontade de ler e a decisão de ver a Pocahontas matar a Cinderela que existia em mim.
Até que peguei para ler e não parei mais.
Já li tantas vezes a mesma história...e a questão é que mesmo depois de tudo ela ainda me prende e me diverte...porque no fundo, eu gosto mesmo é do sentimento que ela me proporciona...eu gosto de acreditar no amor.
Depois de ler os oito livros (pasmem! ela consegue escrever oito livros sobre a mesma família, mesmo contexto, mesmo cenário, sem ser chato!), eu preciso acolher essa minha essência namoradeira e esperançosa, aceitar que eu sou um ser romântico (afinal, Lulu não era o último) e deixar que esse ser cínico e desconfiado encontre passagem para outro tempo e lugar...ele não me pertence.
E foi assim que ao longo dos últimos seis meses, andei voltando a estudar, a ler e a devanear, me fazendo lembrar do que me faz feliz quando estou comigo mesma, do que me faz sonhar, do que ainda quero contemplar...e com quem quero dividir.
No fim das contas, acho que os romances alimentam muitas caraminholas nas meninas (olha minha avó falando por mim), a gente acredita no conto de fadas e ele se vira contra nós, mas que mal tem se me faz bem? Suspiros...as relações não precisam ser tão cheias de expectativas, ninguém é tão perfeito, mas há uma deliciosa alegria em ser imperfeito com quem acha graça ao descobrir sua mais recente imperfeição e se recusa a desistir de ser imperfeito junto com você.
O amor de hoje não permanece estático e acima do bem e do mal. Ele vacila, se transforma, nos transforma, mas de alguma forma contribui para nossa felicidade em todas as fases de sua transformação...mesmo que termine no amigos para sempre.
Dúvidas? Quem não as tem? 
Acho que aceito as minhas porque as certezas ainda são maiores.
Por enquanto...ficamos assim. Eu leio, romanceio, floreio, mas fico atenta às inúmeras possibilidades...e acreditando mais em mim, no meu potencial de me fazer feliz!
Obrigada a quem me deu o livro! Foi só o começo da redenção do romantismo por aqui...

Se você está precisando de uma leitura para estimular devaneios, é só escolher um desses. Cada um aborda uma situação distinta da outra e não precisam ser lidos em sequência...ah, depois é só entrar aqui atrás de mim na fila para o título de último romântico... aceita que é melhor!